Por Marcus Granadeiro

Ao olharmos a evolução das tecnologias, conseguimos perceber que com o tempo e com a maturidade digital há um direcionamento para a adoção de padrões comuns, também chamados de padrões abertos. Essa é uma tendência normalmente ditada pelo mercado, e observamos desde os carregadores e os sistemas operacionais dos celulares até o uso da televisão.

Para os mais novos, é difícil entender que havia dois padrões de mídia para assistir a um vídeo em casa, o VHS e o BetaMAX. E, no futuro, também será difícil explicar que cada marca de celular tinha sua própria interface de carregador de energia e que elas não eram compatíveis entre si.

Com as tecnologias associadas ao BIM (Building Information Modeling), o cenário não é diferente. No princípio, cada fornecedor criou seu produto e seus formatos e, por esse motivo, a dificuldade de interoperabilidade era enorme, mas essa condição está mudando. O padrão aberto já tem certo protagonismo no mercado, o que deve aumentar consideravelmente até que tenhamos a mesma estranheza que hoje temos ao falar sobre o formato das fitas de videocassete.

Dentro desta perspectiva, a buildingSMART, organização internacional que define os padrões abertos para o BIM, também chamado de openBIM, recentemente aprovou o capítulo brasileiro, que ajudará na adoção, divulgação e adaptação dos padrões para nossa realidade.

Quando se fala em openBIM, talvez o formato mais conhecido seja o IFC (Industry Foundation Classes). De forma geral, ele é conhecido como um padrão de arquivos que permite a “exportação dos modelos” além do formato proprietário, porém, seu conceito, estrutura e aplicação vão bem além disso. Uma das vantagens de ser um padrão aberto, inclusive definido por uma norma ISO, é ter a garantia da perenidade do acesso à informação sem depender de um determinado fornecedor ou tecnologia, incluindo a liberdade de conseguir utilizar os dados com a aplicação mais conveniente, sem ficar refém de um determinado fornecedor em função dos dados.

Nesse contexto, o openBIM vai muito além, pois ele contempla dicionários, definição de requisitos, colaboração e a integração de sistema com o padrão openCDE (Common Data Environment). Com essa definição de requisitos e a utilização do formato IDS (Information Delivery Specification), é possível automatizar controles de qualidade e monitoramento do avanço da maturidade do modelo, o que é um ponto muito importante, pois já temos casos de projetos “planless”, ou seja, desenvolvidos sem emissão de desenhos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, existem dois departamentos de estradas estaduais, os chamados DOTs (Departamento de Transporte dos Estados Unidos), que utilizam o conceito de MALD (Modelo As Legal Document), ou seja, o projeto e a construção de rodovia são desenvolvidos sem desenhos em duas dimensões, que é o conceito “planless” na prática. Esse tipo de aplicação seria muito complexa sem a adoção do padrão aberto, pois há necessidade da circulação da informação por inúmeros stakeholders, que não estão obrigatoriamente utilizando a mesma plataforma.

Todas essas iniciativas mostram que as definições dos padrões estão evoluindo e as possibilidades de integração se multiplicando. Assim, a utilização da melhor estratégia desses recursos no plano de negócios e execução BIM é o que irá levar à verdadeira transformação digital nas empresas.

*Marcus Granadeiro é engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da USP e sócio-diretor do Construtivo, empresa de tecnologia com DNA de engenharia

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